Sudão: três anos de uma guerra que continua a destruir vidas
- Jovens Jornalistas
- 10 de ago.
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Por Gustavo Campos
O Sudão está em guerra civil desde 15 de abril de 2023, e o pior é que ela nasceu de uma amizade rompida. Abdel Fattah al-Burhan, comandante do Exército sudanês, e Mohamed Hamdan Dagalo, o Hemedti, líder das Forças de Apoio Rápido, deram um golpe juntos em 2021. Menos de dois anos depois, viraram inimigos, e Cartum virou campo de batalha entre as duas forças que antes dividiam o poder.
Mais de três anos se passaram e o conflito não dá sinais de esgotamento, só se espalhou, de Darfur a Kordofan, deixando pelo caminho uma capital em ruínas às margens do Nilo.
Uma crise humanitária de enormes proporções
Os números ajudam a dimensionar o tamanho do problema, mesmo sem dar conta da dor por trás deles.
A ONU estima que 33,7 milhões de sudaneses vão precisar de ajuda humanitária em 2026: cerca de dois terços da população do país. O Sudão tem menos de 1% da população mundial, mas concentra 10% de todo mundo em situação de carência no planeta.
Mais de 21 milhões enfrentam insegurança alimentar aguda, e pelo menos 14 áreas entre Darfur e Kordofan correm risco iminente de fome.
Em Zamzam, no norte de Darfur, a fome já foi declarada oficialmente em agosto de 2024. Em Um Baru, também no norte de Darfur, mais da metade das crianças (53%) apresenta desnutrição aguda global, e 35% já estão em desnutrição aguda grave.
A Unicef, que só faz esse tipo de alerta em situações extremas, emitiu em abril deste ano seu primeiro comunicado de emergência em duas décadas: 17,3 milhões de crianças sudanesas precisam de proteção contra violência, fome, doença e deslocamento.
Milhões de pessoas obrigadas a fugir
O deslocamento, aliás, é outro capítulo à parte.
O Sudão hoje concentra a maior crise de deslocados do mundo, com 14 milhões de pessoas fora de casa. Cerca de 9 milhões deslocadas dentro do próprio país e 4,3 milhões refugiadas em Chade, Egito e Etiópia.
São famílias que saem levando só o que dá para carregar, mães atravessando deserto com filho no colo, gente que não resiste à travessia e morre a poucos quilômetros da fronteira.
El Fasher, capital do norte de Darfur, é o retrato mais duro disso. Depois de um cerco de 18 meses, as RSF tomaram a cidade em outubro de 2025 e mataram entre 60 mil e 200 mil pessoas em apenas seis semanas, um ritmo de matança que não se via desde o genocídio de Ruanda, em 1994.
Os próprios Estados Unidos já classificaram oficialmente o que as RSF e milícias aliadas fazem como genocídio.
Uma guerra que destrói sistemas inteiros
A guerra não mata só com bala, mata destruindo sistema por sistema.
Mais de um terço das unidades de saúde do país estão fora de operação, e a OMS já contabilizou 201 ataques a instalações médicas, com 1.858 mortos e 490 feridos entre pacientes e profissionais de saúde.
Enquanto isso, cólera, dengue, malária, sarampo, hepatite E e difteria circulam ao mesmo tempo, turbinadas pela falta de água tratada e pelo saneamento destruído.
A educação sofre o mesmo colapso: metade das escolas do país não funciona, e quase metade das crianças em idade escolar já passou cerca de 500 dias sem pisar numa sala de aula, mais tempo fora da escola do que nos piores momentos da pandemia.
A violência sexual quadruplicou desde o início do conflito, segundo a ONU Mulheres, e há relatos de mulheres e meninas que tentam tirar a própria vida para escapar de estupros sistemáticos.
A dimensão étnica do conflito
Por trás de tudo isso existe uma dimensão étnica que não pode ser ignorada.
“Talvez o detalhe mais incômodo de tudo isso seja o silêncio ao redor.”
Em Darfur, RSF e milícias árabes aliadas conduzem campanhas de limpeza étnica contra os Masalit e outros grupos não árabes, e imagens de satélite já confirmaram o desmonte sistemático de bairros inteiros da comunidade.
Do outro lado, o Exército sudanês também é acusado de executar civis em Darfur e no sul de Kordofan com base em suspeita de lealdade tribal.
Os dois lados usam o cerco como arma, bloqueando comida, água, remédio e ajuda humanitária, e cidades como El Fasher, Kadugli e Dilling viraram armadilhas mortais para a própria população que vivia nelas.
Uma crise que luta para ser ouvida
Talvez o detalhe mais incômodo de tudo isso seja o silêncio ao redor.
Enquanto outras crises dominam manchetes, o Sudão luta até para ser mencionado, e o financiamento humanitário reflete esse abandono: o Acnur conseguiu levantar só 40% do que precisava para suas operações, e a Ocha já avisou que o trabalho humanitário está à beira do colapso, com armazéns quase vazios e comboios de ajuda enfrentando insegurança extrema.
Ainda assim, o povo sudanês resiste.
As chamadas Emergency Response Rooms, grupos de resposta liderados pela própria comunidade, arriscam a própria vida para distribuir comida, cuidar de feridos e proteger deslocados, muitas vezes sem recurso nenhum e sob ameaça constante. Neste caso, a última linha de defesa num país onde as instituições simplesmente pararam de existir.
Uma geração a crescer em guerra
Três anos de guerra deixaram uma geração inteira crescendo sem escola, sem segurança e sem acesso a cuidado de saúde básico, em famílias que hoje sobrevivem com uma refeição por dia, quando sobrevivem com alguma.
E o que fica no fim é uma pergunta incômoda:
Quanto tempo mais o mundo vai tratar essa catástrofe como um problema distante, quando ela está acontecendo agora, em Cartum, em El Fasher, em cada estrada de terra por onde passa uma mãe carregando um filho com fome?
